Crónica #4 | Dia dos namorados

 A história não é de agora, não começou à pouco tempo. É quase impossível de contar os dias, por eles são muitos, são demasiados para contar.
 Deviam ser uns miúdos ainda, que bem à pouco tempo ainda brincavam às Barbies e com o Ken. O momento não era o certo, mas aconteceu ..
 A rapariga "amava" outro rapaz, e não aquele. As coisas com o outro rapaz estavam a correr bem, até que o outro entrou na vida dela, como se costuma dizer, sem avisar. 
 O tal outro rapaz, não era o outro, mas sim o principal desta história a dois. A altura não era a melhor para começar um amor a dois, mas tudo se foi passando, até hoje.
 Essa rapariga em tempos fui eu, a pequena rapariga que aprendeu a palavra amar aos 13 anos e que até hoje sabe o seu significado.
 Hoje aos 19 anos, sei que fiz as escolhas certas e que aprendi correctamente o significado do amor.

 O primeiro amor pode ser complicado, mas para mim foi simplesmente mágico e especial ... ainda hoje o é.

Já lá vão quase seis anos ao teu lado ...
Crónica #3 | Consegui olhar-me ao espelho

 Este tema é muito sensível para mim, mas finalmente consigo falar dele sem medos e sem vergonha.
 Eu nasci muito gordinha, com quase cinco quilos, mas a partir dos meus oito meses que me tornei um bebé magrinho, comia e não engordava. Nunca foi um problema, até entrar no sétimo ano escolar, que comecei por ser alvo das ditas bocas de mau gosto, até chegarem mesmo à violência psicológica, porque era uma violência para mim. 
 O problema não era só a magreza em si, mas sim também a altura. Para alem de nascer gordinha, nasci também muito grande. 
 Sofri imenso durante este tempo todo, foram quase cinco anos a sofrer psicologicamente.
 No inicio eram só comentários, do género "Ai és tão magra", "É que és magra e alta" ou "tu não engordas...". A partir dai só foi piorando, até chegar ao ponto de me chamarem de anóretica ou inventarem coisas sobre a minha alimentação. Se não comia num intervalo é porque não queria engordar. Se comia uma maça era porque tinha poucas calorias. Se dizia que estava mal disposta era porque não comia à muitas horas ou porque estava a tornar-me bulimica. Depois vieram os nomes horríveis e as alcunhas que me faziam sentir ainda pior, iam desde a famosa Olivia palito, à girafa, à torre, à gigante e muitos mais que me soavam todos a gozo e a troça da minha pessoa. Naquele momento não pensava como hoje, e hoje sinto que essas pessoas que me humilharam e me fizeram sentir mal comigo mesmo deviam ser pessoas muito frustradas e que não gostavam delas próprias para fazer-me isso.Quando entrei para uma agência de modelos, os comentários pioraram e humilhavam-me cada vez mais. Faziam-me duvidar tanto de mim, que sai simplesmente da agência com vergonha duma possivel negação, por ser demasiado magra. As frases que mais ouvi foram "Fizeste bem, eles não precisam de esqueletos andantes." ou "Nem sei como é que quiseram uma pessoa tão magra. Deve ser porque querem sempre as anoreticas agora".
 Os tempos foram passando e a vergonha foi aumentando. Eu não gostava do meu corpo, não gostava de mim. Escondia-me de mim e de todos. As manias foram aumentando. Só usava calças, só usava camisolas que tapassem os braços finos e no verão usava casacos por mais finos que fossem, para ninguém ver. Haviam dias que nem conseguia olhar-me ao espelho, sentia vergonha de mim e cheguei mesmo a sentir nojo e tapar o espelho com lenços, para não ver a minha imagem. 

 Consegui, Consegui. Foram as minha palavras ao fim destes anos todos ao saber que tinha ultrapassado isto sozinha. Não quis dizer a ninguém, não queria que ninguém soubesse deste meu problema, que para mim era um grande problema. Hoje consigo olhar-me ao espelho sem problemas. Continuo na luta para engordar, mas já não é um obsessão. Mas é uma vitória quando engordo nem que seja meio quilo.
 A essas pessoas que me humilharam e que me envergonharam estes anos todos, espero que estejam contentes pelo que fizeram, sem pensar uma única vez que essa rapariga magra e alta tinha sentimentos e que por acaso podia ter um problema psicológico, derivado a esses comentários que a destruíam por dentro. Passaram muitos anos, e hoje agradeço a essas pessoas porque graças a elas, sou o que sou hoje e tenho muito orgulho nisso. Hoje já não ligo a esses comentários maldosos e a única resposta que dou, com muito orgulho, é "Eu sou assim mesmo, e gosto!"
Passei por muitas coisas na vida que me fizeram como sou hoje. Sou forte, determinada e sensata.

Venci, venci, venci mais uma batalha! E hoje partilho convosco ...
With Love,
Hirondelle

Crónica #2 | A Homossexualidade


 Este tema já foi tantas vezes discutido e falado que nem sei como existe tanta discriminação. 
 Já não é a primeira vez que ouço dizer "aqueles gays" ou palavras ainda piores dirigidas a casais homossexuais, principalmente do sexo masculino. 
 À uns dias fui jantar fora ao shopping. Como é habitual, estava super cheio e eu fui obrigada a ficar numa mesa que estava super colada a de um rapaz e de uma rapariga na casa dos vinte/vinte e cinco no máximo. 
 Eu não costumo ouvir as conversas alheias, mas esta até o meu namorado ficou com uma orelha de lado a ouvir comigo. A conversa deles foi deveras discriminadora e ofensiva. 
 Quando olhei ao meu redor, percebi a quem é que se dirigiam. A um casal homossexual do sexo masculino, que sobrepunha as suas mãos sobre a mesa do jantar. 
 A conversa incomodou-me imenso. Quando percebi a quem se dirigia, ainda me incomodava mais. As frases eram tão disparatadas, e eu nunca imaginei que fosse possivel, vindas de uns jovens. Eram algo deste género "estás a ver aqueles dois ali?", "opa que nojo, não sabem fazer isso em casa não?", "Deviam haver multas para gente dessa, ainda por cima aqui em publico", "Se ainda fossem duas gajas, agora dois gajos, epa mas que nojo só de olhar", "como é que há gente assim?" ... e muitas mais frases que me encheram a cabeça de discriminações, por parte de dois jovens. 
 E com a frase típica de "se fossem duas gajas...", vê-se logo que tipo de pessoas são. A típica discriminação da homossexualidade por parte do sexo masculino. Se estas frases viessem de uma pessoa idosa, ainda conseguia perceber, os tempos mudam.

Este e muitos mais episódios semelhantes só mostra como o nosso pais é pequeno e pouco desenvolvido a este nível ... é pena!


Veterinário | Um susto dos grandes
 
 Na sexta disse-vos que ia para o veterinário com a minha cadela, que faz este ano 14 anos.
Cheguei a casa na sexta e deparei-me com ela a bater em tudo, parecia que não via nada. Foi agravando, até que às 19h fui com ela para o veterinário. Levei-a para a sala dos exames e lá a médica a examinou. Quando se virou para nós e disse "pois sabem, quando os cães já são velhotes podem aparecer massas más no cérebro ..." a partir dai, não consegui ouvir mais nada, só o som das lágrimas a caírem automaticamente. Ainda nem passou um ano em que tive que enfrentar o cancro cerebral, e já tinha que enfrentar de novo?! Não era justo! Depois de muitas perguntas lá disse que poderia ser outra coisa, uma coisa com um nome super esquisito e que eu desconhecia, encefalite. E que estaria a desenvolver glaucoma devido à inflamação nos olhos. Receitou uns medicamentos e encheu o rabiosque da "Bianca" com injecções. 

 Viemos para casa com a sensação que íamos perder a nossa velhota, como a chamamos. Passamos a noite super mal, com ela sempre acordada e a fazer chichi no chão. Enquanto ela acalmou e decidiu dormir na caminha dela, fui pesquisar sobre as possíveis doenças que ela possuía. Ainda fiquei pior do que estava. Fiquei em choque e apavorada por pensar que ela poderia estar a sofrer e pior, por saber que o estado dela só ia agravar. Já passei pela horrivel experiência de ver um animal a ter convulsões, não queria voltar a ver, visto que era um dos sintomas da encefalite. Já a glaucoma, tem cura e só provoca a cegueira, é mau, mas pelo menos não a faz sofrer, no meu ver. Fiquei em pavor só de pensar...
 Voltamos lá no dia a seguir, por volta das 15h30. O veterinário estava cheio, e tinha a noção que só ia sair de lá já de noite. Sempre que falavam com ela ou nela, as lágrimas enchiam-me os olhos só de pensar que podia perder a minha companheira de tantos anos. Os dois médicos que lá estavam, eram os meus preferidos, os que acho que "percebem" melhor do assunto. (nada contra a médica que me atendeu na sexta-feira). Ao fim de duas horas à espera, lá entramos para o consultório da DrªPatricia.  Conversamos com ela e explicamos tudo o que se estava a passar com a Bianca. Ela fazia perguntas, nós respondíamos. Eu fazia perguntas e ela explicava-me. Fez mil exames, viu os olhos dela com dois instrumentos, foi fazer duas ecografias, uma á barriga, para certificar que não existiam massas maliciosas e outra aos olhos, para ver se a tal cegueira não era derivada a massas maliciosas na retina. Meteu-a no chão e disse para eu a largar para ver como ela agia, claro que foi contra tudo. No fim lá nos deu a noticia, que me agradou apesar do mal que é, a Bianca está completamente cega só, não existem massas maliciosas dentro dela. Explicou-me que a cegueira dela podia ser derivada a uma "cegueira aguda", que vem sem avisar. Receitou-me mais medicamentos e mandou me lá ir no dia a seguir, hoje.
 Cheguei lá e fui atendida pelo outro médico que gosto, o DrºJoão, que corroborou com o diagnostico da DrªPatricia. Lá encheu o rabiosque da Bianca com mais injecções e receitou-lhe medicamentos para ela não ter dores.
 O diagnostico não é dos melhores, mas é bem melhor do que ficar já sem ela. Eu sei que um dia vou ter que me despedir dela, mas não quero que seja para breve, não estou preparada.

Na foto sou eu e a Bianca à Treze anos atrás. A Bianca hoje em dia

Love,
Hirondelle